Eu tinha que ir para casa e agora eu sabia que um carro é apenas um carro e a casa ainda não era minha. Onde é a casa de um nômade¿ Deve ter um endereço. Rua pedrinhas de brilhantes, número um milhão.
Nada estava igual mesmo sempre sendo o mesmo. O abraço era só o braço e os olhos a distância que percorremos num curto espaço de tempo, da chegada à largada. Eu caminhava pelas pedras, aquelas que antes nem reconhecia suas desigualdades porque quando olhava estava tão longe, sorrindo pra mim mesma. Sim, o mundo antes era um voyer. E todas manhãs de domingo as 10 horas eram assim como as 10 da noite de sábado. \Só que dsta vez eu via o concreto do chão, tão distante do que havia dito a poucos minutos,com as lágrimas lavando minha fé: “Eu gosto de ti pra caralho”. Eu já ouvi essa palavra de outra pessoa e não teria percebido a intensidade dela até dizê-la sem mesmo digeri-la. Não é assim com aquela palavra mundialmente, cotidianamente conhecida, aquela expressão secular de 3 palavras “Eu te amo”. Não, eu não disse “Eu te amo”, é demasiado clichê e séria para ser dita tão espontaneamente. Já “Eu gosto de ti pra caralho” , não é o “gosto” que sai pra fora do peito, da boca e explode no mundo por vezes surdo. È o caralho, palavra suja, deveras proibida escondida por poeira e ácaros invisíveis. Caralho, lembrando que um charuto nem sempre é um charuto.
EU GOSTO DE TI PRA CARALHO, não é todos que dizem. Neste exato segundo no mundo todo poderiam estar 5 milhões de casais dizendo Eu te Amo. Quantos poderiam dizer gosto de ti pra caralho¿ Não é mais que amor, nem menos. È diferente; não faz promessas, não assina contratos secretos e nem mesmo tem intenção. Fica falso se não for sentido antes de pensado e vira gíria cool se for levado a cabo semânticamente.
Eu dei algo ao falar, não sei ao certo o que e fui embora com ele, olhando pra calçada fria e aos poucos reconhecendo a manhã e todas coisas que nem antes enxergava. Trasmutei-me voyer e via os gatos de rua e os vermelhos ao me redor. O banco da praça, a roupa estendida no terceiro andar, uma moto. Com a sobriedade sem tamanho todos vermelhos.
Tudo parecia mais claro, a calçada era uma calçada, o carro um carro, a casa só uma casa, o gato apenas um gato malhado, sem telhados, nem Alices. Então eu me perguntava se alguém já teria visto aquele mundo agora tão exibicionista dando as caras novamente. Teriam os poetas percebido a beleza do que fere, do que mata¿ A beleza da anestesia, a solidão que te estende a mão e te puxa de volta pra tua itinerância. Tudo parece tão claro, a solidão que caminha comigo, meu gêmeo univitelino.
Difícil era abandonar meu cigarro mais um último. Ele sempre foi meu correspondente do que havia a ser contemplando nesse mundo, eu me lembrava do prazer que me causava ao estar só.”Gosto de ti pra caralho”, eu pensava sorrindo entre as grades, no lugar nenhum, que davam para o lado do que se chama rua e o outro que chamam de casa.
Olhei para o cigarro que já havia sido todo sugado por mim, pelos mengigos e poetas, espiando mais um pouco o vermelho. Resolvi, enfim seguir para a esquerda. Mas minha alma, essa canhota, seguiu seu rumo oposto.