Mais uma vez toma o seu chá, agora acompanhado de um líquido doce que a levará a relaxar. Olhará para as velhas figuras fosforescentes que se sobresaem na escuridão e dormirá neurologicamente modificada. Já teve o direito de sentir medo do escuro, já teve o direito de sentir medo do amanhã mas ninguém lhe disse: pode gritar, pode chorar, você é uma criança! Então agora como há muitos anos, ainda se tapa dos pés a cabeça. Tapando-se em todas arestas, em todos os filmes de terror, todos os medos, apagando a lanterna do seus devaneios até que....
O coração para! Por um segundo chegou sua hora. Sente a dor no peito. Sabe que quando se tem um ataque cardíaco a dor sobe pelo braço direito como uma sanguessuga mas se for derrame cerebral a cabeça explodirá, derretida pelo próprio sangue.
Sente a dor no peito. Está tudo acabado. Por uns segundos. Imagina quando que irá morrer. Será assim¿ De uma hora para outra¿ Odeia o fato de não saber. Ela é uma mulher que quer ter controle das coisas. Por isso odeia andar de avião. E se o avião cair¿ Não existe super-homem, pára-quedas....Lost! Não suporta também a idéia de que ninguém sabe se prevalece o Destino ou a livre escolha Niilista. Assim, num surto de solidão, desespero com leves pitadas de paranóia optou pela ajuda dos profissionais e alguns comprimidos ao invés do pai de santo e das ciganas rastejantes que avista ao longe ao andar pelo Mercado Público. Por isso sempre passa correndo pelo outro lado da rua. Acredita que o único preconceito que restou foi contra as ciganas. Não se tem o controle sobre as ciganas. “Ladras, mentirosas”, ela pensa.
Não se tem o controle sobre a Morte. Todas as noites quando o coração para, ela parece encostar no seu minguinho, entre o momento do nada ser, entre a luz e a escuridão. Já pensou, em seu surto de tristeza que talvez fosse melhor assumir o controle das coisas de uma vez por todas e encontrá-la. Mas não suporta não ter o controle sobre seu próprio funeral. Precisa garantir que irá ser cremada com a música perfeita tocando ao fundo (ainda não achou a música certa para a ocasião) e algumas doses de tequila para os convidados. Tequila combina com fogo.
E existem tantas outras coisas das quais não faz a mínima idéia. Uma das principais é sobre o amor, infeliz clichê. Se deveria ter controle sobre os clichês, aqueles das novelas que seus pais assistem todas as noites. As pessoas mais velhas tem lhe perguntado: “E então. já casou¿”. E as mais novas perguntam se ela decidiu de fato se quer homens ou mulheres. Algumas amigas que estão na “seca” dizem: “É uma dádiva você ter o dobro de possibilidades de encontrar alguém!”. Outras desabafam: “Eu sinto que nunca vou casar.” . “Não vai¿¿” . A balzaquiana pergunta. “Não, só me juntar.” Achava que era quase a mesma coisa.
Desde os 06 anos de idade a balzaquiana, como ela mesmo tem se denominado, não por já ter 30 anos mas porque ela quer fingir que já assume o controle do que virá, sempre sentiu, embaixo das cobertas, antes de dormir, que nunca iria casar. Nem casar, nem se amasiar, nem mesmo ser custeada pelo amante barrigudo. A única duvida que resta é se a menina pensava que nunca iria casar ou nunca iria querer casar.
Mas não quer que alguém lhe diga quais sonhos irá ou não realizar. É perder o controle da esperança, ou da ilusão. Já existem sonhos demais guardados um a um nas caixas que depositou na garagem. Os sonhos que sobraram agora estão no meio do script (Nascer- viver- morrer). Nada que saia dessa rota fabricada, nada que ultrapasse a linha do horizonte. Parecem velhas moedas recebidas pelas ciganas comparado as moedas de ouro que suas ancestrais recebiam com o fervor de suas previsões.
Ela tem pensado nisso quase todos os dias. Na vida, na vida sem controle. E olha no que ela se meteu: trabalhar com a vida humana. Poderia ter escolhido computadores, televisores, casas, empresas, vida animal, até aviões. Mas não, ela escolheu trabalhar com a vida humana. Talvez como as ciganas.