quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Estava lendo um livro. Trezentas páginas se transformaram no mesmo espaço de  tempo ao se colocar a bunda num formigueiro. "Um minuto parece uma hora", disse Einstein. Sofrimento e prazer no trabalho, este era o subtítulo. O título? Nem queiram saber. Mas saibam que segundo Dejours todos nós estamos falidos a ter uma carga de sofrimento no trabalho nem que seja mínima. E a arte (e a sorte) é poder  transformar o que inquieta no mais interessante prazer. E o trabalho, indispensável a vida humana adulta é a nossa chance da realização de si mesmo, no fortalecimento das bases identitárias. Pelo trabalho nos apropriamos da vida social, resignificamos o passado vivido dentro de casa e a todo momento buscamos o reconhecimento, pela abertura à autonomia, à criatividade. Mas para isso acontecer dependeria do julgamento do seu trabalho, tanto pelos sistemas de hierarquia, como pelo coletivo dos seus colegas, do cliente ou  da pessoa atendida. Reconhecimento. Todos sabem que não é fácil. Poderia-se então  quem sabe viver só de amor, viver de sexo caso ganhasse na loteria. Não tentem isso, o referido autor afirmou que não funciona. E nosso amigo Freud já disse o óbvio: Não basta estar envolvido só com um aspecto intersubjetivo nessa vida.
Pois eu tenho uma teoria mais interessante. Machado, disse, enquanto fazia minhas trancinhas, que por causa de Eva; aquela do Adão, o ser humano foi castigado com a dureza e a indispensabilidade do Labor. Tudo por causa de uma maçã. Será  que o castigo seria dirigido às mulheres? Porque afinal de contas para o homem poder ir trabalhar a mulher por centenas de anos era obrigada a se restringir a vida doméstica.( e ainda não é considerado como trabalho, no sentido estrito do termo). Ou o castigo era dos homens? Se você pudesse optar, trabalharia?
 É impressionante como a teoria de mãe -anos 80- ex católica, agora nesse momento parece ter maior força simbólica do que de todos outros autores. Porque o trabalho sob meu prismas foi tão castigante, chegando ao ponto em que me arrisco a uma fábula dramática mas nem por isso mesma menos fidedigna:


"Numa senzala muitos negros conseguiram fugir após chibatadas semanais, que eram impostas sem que nem mesmo pudessem entender a dor que era infligida constantemente. As lágrimas não derramadas pela humilhação doíam, mas o que latejava não era estar no tronco, era saber que a qualquer momento daquela semana os próprios pés iriam levá-los até lá. Estes pés não deixavam pegadas, pois atrás dos escravos botinas velhas marcavam o território e um cuspe no chão precedia o vôo do chicote. Muitos escravos conseguiram fugir. O escravo com maior número de cicatrizes teve a mesma oportunidade que lhe escapou por covardia. Mas o mais triste para ele era as outras oportunidades que lhe escaparam. Até hoje não sabe se é fruto de sua imaginação . Mas pareciam tão reais, tão vivas. Correndo pela grama,alcançando o infinito para nunca mais voltar.
Ficou. Brincando de saci, pra parar de latejar, de pernas pro ar . Sonhando ficou, abraçado no tronco até anestesiar, até que não mais ouviu o cuspe e o vento a assoviar."


Gostaria aqui de sair do meu íntimo, do meu narcisismo que sempre vigora e poder falar sobre o quanto o trabalho as vezes se restringe a forma de subsistência, descarecterizado totalmente de uma possibilidade de produção de subjetividade. Qual é o fator de reconhecimento que alguém trabalhando numa cooperativa de recolhimento de lixo ganha? Sem carteira assinada, sem o direito a afastamento por doença, sem possibilidade de singularização do seu fazer. E aqueles trabalhadores informais, que reciclam o lixo que nós produzimos e ainda são vistos praticamente misturados ao material que carregam pois só ocupam asfalto. E aqueles que tem duas especializações e recebem um salário razoavelmente bom, com carteira assinada e durante um ano e meio não sentem-se um dia, um dia a vontade para desempenharem seu trabalho com criatividade, com autonomia, enfim todos termos ditos por Dejours e  reeditados?


O salário é importante e se é. Mas ainda vejo que existem escravos contando trocados no tronco.


E é nesse sofrimento que me levanto e enxergo distante. Livre......