quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A tua carne que te importa não é mesmo. Aquela tez viva, bege rosada; as curvas delineadas por compasso. E a cada passo, um marinheiro ou uma mulher a segurar um lenço branco de despedida esperançosa de seu retorno. Retorno dessa carne. Exposta num açougue, pode cheirar a abacaxi; por vezes cheira a orquídeas mas cheiro de carne na verdade é tudo igual.. Porque o Homem é bicho. Porque mulher também é homem. Homem-bicho, no final o que importa é o coxão de dentro, de fora, maminha, picanha. Costela, vazio. Vazio.......A diferença entre o animal-bixo é a embalagem.  A diferença, é o olhar do bicho, que caça sua presa. Como palhaços pintados num grande circo. Quizeras que fosse sempre de Solei. A carne que te importa não é mesmo¿ Mas tem vergonha de não te atravessares para ver o teu recheio e se lembra do pernil assado que tua mãe fazia em todos natais, sempre iguais. Comprava semi pronto e recheava com muita farofa. Farofa com passas e frutas cristalizadas, nozes. Farofa que trancava na garganta, todos pedaços trancados na goela em mais um natal. Então ela se pergunta que recheio tem sua carne. Por vezes acha que amor não passa de secreções, de cheiro de animal, o coito interrompendo a sua humanidade ardendo em fogo. Amizade não passa de manada, de  colméia. Família não passa de procriação e sobrevivência. Mas muitas leoas para hienas-macho. Se pergunta que recheio tem sua carne. E se lembra de quantas vezes não precisou se questionar a respeito disso. E esta carne exposta não lhe é o suficiente¿ Ao olhar o que havia dentro permita-me ter observado a farofa levemente engordurada pelo cozimento. E carne apodrece. E apodrecendo aos poucos surge em meio a farofa que tranca na goela, as minhocas, os vermes das cores das passas, das nozes e das frutas cristalizadas. Que se remexem por entre suas vísceras e todos os outros órgãos. Mas veja bem; esmiúce as tripas, o baço, o pâncreas, o apêndice. A humanidade está nos miúdos. Logo esses que são os primeiros a virarem carne de segunda ou desmancharem-se sob a terra. E é apenas essa idéia que a impede de algo drástico, quando pensa no recheio. Não suporta a  sua carne apodrecendo, saindo da vitrine. Não lhe tirem essa covardia, nem seus natais por mais secos que possam ser. Não lhes tirem do gancho; seus adereços. Covardia é tudo de humano que possui agora. Covardia e narcisismo.