Sou a caricatura de um cara normal ansiando durante toda a semana pela libertação que as noites de sextas e sábados me propõem. Misturo-me a outros, que em haste levam a cerveja à boca, confidenciando nos goles, a esperança de encontrar o algo a mais. Escolhi o meu reduto, posicionando-me sempre abaixo da mesma escada. Já faço parte daquele local como os degraus de alumínio, o balcão do bar de concreto e a sacada no segundo andar que acredito eu; está prestes a desabar.
Por vezes, tenho a sensação pelo olhar dos transeuntes de que estou disponível para visitação. Contudo, me agrada não passar de um parágrafo. Se você não ultrapassou seu olhar, aqui jaz. E alegra-me ser um roteiro simplório, trajando uma face emudecida que apenas almeja por paz e conveniência. Minha saliva não deve ser desperdiçada. Vou direto ao ponto. Seria Ponto. Exceto por aquela garota que não calava a boca. Meu canto da discrição foi abalado por ela. Injustiçado, levei chutes no rosto através dos vãos da escada de uma sandália roxa que deixava aparentar as rugas do calcanhar esbranquiçado. Não satisfeita, a garota, toda ela, foi tirar satisfação: “Quem você pensa que é! Seu tarado!”
Imaginava ela, que eu estaria a contemplar sua calcinha, feito um adolescente nas escadarias de uma escola de freiras. Tentei usar minhas poucas palavras para desfazer o mal entendido e explicar-lhe minhas intenções: Beber minha cerveja e algo a mais. A loira me fitou como se contemplasse uma estátua de gesso de Michael Jackson. Interessadíssima, resolveu sentar-se no sofá velho localizado ao lado dos degraus para descobrir mais sobre mim. Observei-a da cabeça aos pés. Ao final pensei: “Muito bonita, mas... Não, não faz o meu tipo.”
Mesmo assim, seu papo era tão agradável. Uma taquilálica permitiria a conservação do meu silêncio. Em troca, dava-lhe meu mais sincero sorriso e enchia seu copo de cerveja. Tal situação inusitada envolveu-me a tal ponto de que, pela primeira vez na vida, aceitei o convite para dançar no meio da pista. Fui envolvido; fechei os olhos confessando o contentamento com o Cha Cha Cha, movendo os cotovelos dobrados de um lado para o outro, de um lado para outro. Imagino que seja dessa forma que um homem deva dançar. Enquanto isso, sem que soubesse, a loira trajava o sorriso de Monalisa. Nos cantos da festa; os fiéis seguranças, com a seriedade das testas franzidas, transmutavam-se em homens alegres e surpresos ao contemplarem minha mudança de rotina.
Mas como afirmei no meu parágrafo, toda essa minha incontinência de vocábulos, não passa de uma exceção, de um eclipse não anunciado pelos meios de comunicação. Um eclipse dura o tempo suficiente para eu abrir os meus olhos e buscar aliviar a claustrofobia pelo inusitado com outra cerveja. Retornei ao meu reduto, enquanto a atraente e bela garota, me sussurrava ao pé do ouvido palavras como: buceta, seios, bunda. Ela insistiu mais um pouco: buceta, seios, bunda, buceta, seios, bunda. – “È a melhor coisa que existe para um homem não acha?” Não satisfeita, a loira se pôs a descrever as partes íntimas, como se estivesse tentando vender um carro com Air Bag, total flex, direção hidráulica, 2.0.
Comecei então, a entender mais sobre o sorriso de Monalisa. Imagino que em sua época já existira mulheres perniciosas buscando moldar os homens ao seu bel prazer. Meu sorriso foi diminuindo ao reconhecer suas intenções. Mas o mais frustrante foi quando aquela se pôs a brincar na escada e recebeu em troca um banho de cerveja que vinha do segundo andar por outra Monalisa qualquer:
- Você está me atrapalhando! Não percebe que você pode me prejudicar?
Estas foram minhas últimas palavras dirigidas a gata escaldada. Espero que os homens me entendam agora, principalmente na capacidade que as mulheres têm para deixar um cara tão inerte como eu, indignado tanto quanto um cataclisma. Mas fui contido pela visão... Inesperadamente. Em passos lentos e suaves, a amiga da taquilática vinha em nossa direção. Observei-a dos pés a cabeça e no final me dei por conta: “Estou apaixonado.”
Fomos os três, convidados a se retirar para fora da festa, pois não havia alternativa que não fosse varrer o chão, pois agora o sol já estava a pino no seu devido lugar. Não me restava tempo. Fiz a proposta ajoelhando-me, na menção honrosa à menina de botinhas pretas carcomidas pelo tempo e pela vida andarilha.
A outra gritava à amiga: – Não faça isso, você está vendendo seu corpo! Isso é coisa de prostituta!!!
Sim meus caros, paixão nem sempre dignifica um homem e a obsessão te faz jogar sujo. Paguei os dez reais combinados à menina das botinhas. Com toda saciedade e desejo que um homem tem pelo algo a mais, usei a minha saliva poupada pelo silêncio, direcionando-a do inicio ao fim na sola fina daquelas lindas botinhas pretas, imaginando a nudez escondida por dentro delas. Unhas, plantas, dedos. A amiga de calcanhar rachado finalmente desistiu, solavocando os pés de galinha de macumba para longe dali. Enquanto isso estava absorto pelo desejo e faria o mesmo com a botinha esquerda. Pés, pés, pés, pés.
Vou terminando por aqui, reiterando de que eu sou apenas mais um cara normal, segurando sua cerveja e esperando por algo a mais. Talvez a única diferença entre eu e os demais, seja de que, as mais de duas mil fôrmas de sapatos, sandálias e scarpins já beijados por mim pelo vão da escada, revelem o reverenciamento e respeito que poucos homens dispensam às mulheres. Beijo e lambo solas e dedões como faria um cristão sob o altar de uma santa milagrosa.
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