quinta-feira, 3 de março de 2011

RESENHA

Ela tinha 0 de idade. Nem sabia ser possível sair daquele buraco negro. Buraco negro que nada! Era sua caverna encantada, com sons e luzes misteriosas, alguns tremores mas nada comparado ao momento de estado de alerta dos Aliens vestidos de verde. Suas máscaras verdes, suas luvas abduzindo-a. Ora! Ela nem saberia que um dia iria dizer: Luvas! Verde! Óvnis!
Tinha 02 anos de idade. Seus pais limpavam as paredes já não tão brancas com detergente. Ela punha as mãos no líquido escorrendo pelas paredes e levava tapas nas mãos. “Não!” Após algumas tentativas, entendeu por fim que era proibido por as mãos..Poderia então por a língua. E a lambeu, como uma bola derretida de sorvete. Delícia!

Tinha 03 anos de idade. Muitos animais com nomes estranhos, diferentes. Todos enjaulados. Porque os animais são perigosos? se perguntava. Mas as perguntas sempre ficavam dentro dela. Ela era como os animais, não falava muito. Mas caminhava bastante pois o espaço para os humanos lá era explendorosamente gigante. Nem teria tanta perna para tudo o que gostaria de explorar. Tinha mais olhos a lhe fitar e fitas nas suas tranças do que pernas e audácia. Era discreta como um cavalo marinho. Mas ironicamente preferia as girafas sem saber que um dia iria se parecer com uma delas. No fim do passeio fez a única pergunta¿ “Porque as zebras são de duas cores?". “Porque deus quis assim.”

Já fugiu de casa. Foi até a esquina e voltou. Mas em outra vez, com uma sacolinha de plastico arrastando no chão pelas ruas, pai, mãe e tia procuvam desesperados pela pequena andarilha. Quando encontrada, não muito longe de casa lhe perguntaram: "Meus deus!!!! Aonde tu ia minha filha?? Ela responde com firmeza:"Trabaiár mãe. pra comprar carni, ceveja e cachachá."

Com 04 anos ganhou o segundo lugar como princesa do desfile dos Funcionários da Brigada Militar. Mais trancinha, laços e o sorriso do papai estampado nas fotos. Mais tarde passaria no vestibular na sua segunda tentativa, no concurso na segunda tentativa e no outro concurso em segundo lugar. Sem fotos do sorriso do papai estampado nas fotos.

Tinha 05 anos agora e mal se lembra das noites que tinha que dormir na Emergência Hospitalar em que sua mãe trabalhava. Se lembra somente dos longos enormes corredores que circulava e da pastelina frita com salsicha que sua mãe recebia de lanche nas madrugadas. Tinha um colega dela que sempre cuspia na sua cota de lanches evitando assim um possível furto. Por isso a menina nunca se atreveu a pegar escondido pastelina frita além do que recebia. Uma vez encontrou uma sala fria com gavetões de metal e perguntou à mãe: “O que é isso¿” – “Aí, é o sistema de ventilação, nada demais”. Lembrando-se deste dia, se dá conta que se uma criança pergunta algo ou ela está preparada para ouvir a verdade ou já sabe da resposta. E ela tinha medo dos mortos.

Com 06 anos, escreveu seu primeiro poema.Como uma das milhares de vezes em que quebrou o braço pedia ansiosamente para a mãe: "Escreve aí mãe! escreve!
Bracinho doente,quebrou derrepente. por cima das lágrimas eu chorava chorava."

Também brincava de médica. Fingiremos ignorar a malícia por trás. Até porque não haviam pintinhos para se ver. Então apenas cita o fato de que brincava de ser chefe do hospital e que batons e guloseimas eram proibidos entrar no ambiente. Assim como era obrigatório o uso de jaleco. Anos mais tarde receberia advertência verbal de uma instituição de ensino ao ser contra o uso do uniforme branco no seu local de trabalho.

Com 07 anos cometeu seu primeiro furto. Mas se desculpou com Deus dizendo que não seria um furto mas sim uma omissão. Pagou por um picolé de fruta e pegou um de chocolate. “Omissão não é crime”.

Com 08 anos ainda estava restrita a brincar na casa de duas amigas em determinados momentos e horas que nunca conseguiria prevê-los. Dependeria de sim ou de um não, dolorosamente empreendido. Sim, não. Nãosim. Sim! Não! Com tamanhos gritos, ansiedades e brigas que vivenciava dia após dia em casa aprendeu a se jogar no chão e a gritar como se estivesse morrendo. Muitas vezes tal ato vergonhoso só gerava mais angústia, mas algumas vezes surtiam efeitos interessantes.Não podia negar o fato que era sempre prazeroso enlouquecer e assumir o controle de vez em quando. Nas vezes em que podia dormir na casa das amigas, a comida sempre era pizza ou cachorro quente. Nada de arroz e feijão. Coca cola e cheiro de cachorro salsicha. As falas eram mais mansas e haviam mais sorrisos estampados como nos comerciais de margarina. “Bem que poderia ser um filme ao invés de um comercial".

Com 09, 10, 11, 12 anos foi ficando mais desengonçada. As pernas de girafas, os braços de orangotango, as mãos de chimpanzé, os pés de elefante mas sem a cor da zebra. Não parece ter muito a se lembrar. Parece que foi abduzida novamente por um Óvni nesta época. E a ansiedade que via de fora agora vinha pra dentro dela. Quebrava copos com os dentes sem querer e ao término da aula estava com as mãos e o rosto rabiscado de caneta. Ainda tinha poucos amigos e se sentia mais pra dentro das grades do ZOO.

Com 13, 14 anos ainda parado. Ainda sem saber se um dia iria conseguir pagar os impostos, se iria caminhar por outras cidades sem se perder. Rasgava os fundilhos das calças pulando os muros da escola porque chegava sempre 15 minutos atrasada pra aula e a tia do portão não liberava a entrada. Calças Bag, semi Bags e camisetões coloridos. Nada de coisas belas, belas meninas adolescentes. Mas ela teria que ser uma, mais cedo ou mais tarde. Porque deus quis assim.

Vale citar que nesta época descobriu seus poderes paranormais a qual as pessoas chamavam de intuição. Parece simples mas nem todos a possuem. Os céticos a chamam de percepção. No grupo de amigos de infância enquanto todos escutavam Sertanejo, Ivete Sangalo em inicio de carreira ela já escutava Roxette. “Spend my time”. Yes. Então perguntaria a vocês. Quem seria o primeiro a se casar primeiro¿ Ela¿ Nop. Sua primeira dica: primeiro a casar seria a Renata, depois Junior, depois Cibele que ficava com Junior, depois Junior (após 1 divórcio que não foi com Cibele), depois Ricardo. Por último ela. Bom, o fato é que não foi convidada para nenhum desses casamentos. Até porque tudo hoje é muito amaziado.E não pegou nenhum buquê de flores. Mas descobriu que os últimos a se casarem ou os que não casarão possuem ótimo gosto musical.

Com 15 anos não teve escolha. Depois de tanto mentir foi obrigada a beijar. Não sabia o que era direito ficar então pôs a mão na bunda do menino, afinal de contas ela mentia para as amigas que "ficava direto". Na tarde do outro dia todos haviam dado a ela A Letra Escarlate.Quanta rapidez, e nem existia ainda o MSN e o orkut. Mas as vezes quando nada parece acontecer é bom levar a fama do que não se tem de fato. Muito divertido. Mas deveria ter cautela, pois no fundo ela só queria a fama. Era uma boa moça, tinha certeza. Certinha, pura, bondosa a que todos os meninos poderiam se apaixonar. O que rendeu apenas uma centenas de poesias que escreveu sobre amores não correspondidos.

16, 17, 18. Já vinham as saias, vestidos curtos, as primeiras festas. E nas festas com o maior orgulho de parecer mais velha. Nunca teve tanto orgulho em ter 30 anos de idade, com o contorno do lápis marrom desenhado por fora da boca pra parecer maior. Conhecendo um cara, já pensando se ele seria o namorado, um bom namorado, quando iria ligar, qual o signo dele. Eles combinam¿ “Que sorriso lindo, é loiro! Olhos azuis! Ele pegou minha mão na saída. Isso quer dizer isto. Isto quer dizer aquilo. Aquilo quer dizer aquele outro. Quem, como, cuma” E secretamente lia a capricho, porque nessa horas a intuição falhava. Tomava lagoa azul e pina colada e ao final um todinho porque sempre sobrava consumação. Naquela época nem se dava conta que o que queria secretamente era só o platônico. Nunca quis a realidade, só o cheiro da festa, novo e mágico.

19, 20, 21. o tempo vai passando. Uma vez lhe disseram que depois dos 18 anos a vida passa correndo. Passa tão correndo que nem se lembra de fatos isolados. Só de que teve namoros, colégios, amigos, mais amigos, festas poucas. A folha do Pá (não pode aqui citar o que seria). Não era mais gordinha e controlava os braços de orangotango. Até fez uso deles depois para a dança do ventre. As brigas e gritos ainda continuavam. E durante muito tempo rádios, televisores, computadores, celulares estragavam em suas mãos. Desastre natural, seria agora a girafa. Não raras vezes sonhava que havia ganhado um televisor ou um computador num sorteio.

Na faculdade que durou seus 5 anos, não poderia tomar os porres universitários, desfrutar das festas acadêmicas, nem sabia das transas por créditos e as roupas de desfiles bibliotecários. A faculdade custava caro . Em 05 anos de faculdade recebeu apenas uma carona após a festa de seu colega que hoje possui Dêmencia induzida pela dependência em àlcool. Ela morava longe de todos. Tinha algumas poucas grandes amigas, um grande amigo da época de cursinho pré vestibular que estudava agora no mesmo prédio e seu estojo de metal onde anotava a cola antes das provas. Era como um amuleto. Nos primeiros semestres seus colegas diziam que ela queria ser sexóloga por defender alguns direitos à livre orientação sexual. Depois procurou estágios extra curriculares para ganhar uma grana extra e ir além dos muros da faculdade. Acabou por grande parte da faculdade a estagiar o dia todo e estudar a noite.

Após a faculdade sofreu durante um ano por ser teimosa. Não queria empresas, não queria selecionar, não queria mesas, nem escolas particulares, nem controle de qualidade, nem divãs. Queria sexo, com amor. Mas não queria ser sexóloga. Com esforço conseguiu o que mais queria profissionalmente. Olhar o mundo, de vários ângulos, interagir com ele.

E ganhando dinheiro pode comer seus cachorros quentes, tomar seus porres, fazer besteiras, se arrepender depois. Pode abrir a porteira da realidade e da fantasia. Abrir e fechar. Parecia sempre encontrar a mesma coisa mas aos 25 anos algo ocorreu. Algumas algemas forma quebradas, do que ela era, do que ela queria, do que ela gostava. Nada de poemas. Ela nunca mais seria a mesma. E nunca mais fingiria ter se encontrado. Porque tudo que precisava era se perder.

Ainda quebra copos, derrama 30 litros da água na sala de equipe, pisa em cocô, cai no chão de cara. Sóbria. Briga no zoo por causa da lata de refri que jogam no jacaré. Avista os roxos talvez inflingidos pelos aliens, cai na bacia de gelo da champagne. Porres. Leva banho de cerveja por defender o tarado do pé, que fica em baixo da escada lambendo os sapatos das moças como se fossem sorvetes dee vários sabores. Assim como ela já fizera com a parede molhada de detergente.









































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